O POVO de Luto
Eu sei que eu não passo de uma estagiária, que eu nunca conversei com ele ou o vi andando dentro dessa redação. Mas eu simplesmente não posso me negar o direito de chorar por ver pessoas que eu cativei e que me cativaram tristes. Chorando.
Hoje foi a primeira vez, em dois meses, que eu vi essa redação literalmente parar. Parar ao ponto de fazer um minuto de silêncio. Onde nenhum telefone tocou, onde ninguém gritou. Onde não se puderam ouvir risos ou lamentações.
Hoje, pela primeira vez, a redação parou para ver e ouvir cada edição de jornal que tocava no assunto. Pela primera vez, a redação foi notícia de jornal. E foi a primeira vez que eu vi meus editores chorarem, e ver isso doeu.
Doeu ver os olhos vermelhos, as lágrimas que não cessavam. O aperto que era compartilhado por cada um que via e ouvia. Receber a notícia doeu, vê-los tristes doeu e digerir todo esse clima, em um ambiente sempre alegre, ainda doe.
Eu não sei o que passou pela cabeça dele. Eu não sei como pensar em um suícidio, como disse a Cida: "Eu nunca sei se suicidio é coragem ou covardia. Porque ninguém sabe o peso que o próximo carrega sobre os ombros. A gente tem mania de menosprezar as dores dos outros e aumentar a nossa. Eu não sei o que pensar". Doeu ouvir isso de uma pessoa que eu sempre vi alegre. Doeu vê-la chorar.
Pouco me importa se as pessoas vão achar que eu sou exagerada, que eu não tenho porque estar chorando, que eu não tenho porque sofrer. Mas é como eu disse para o Demitri quando ele me falou: "Ninguém esperava. Ele era doido. Alegre." e eu respondi: "É, mas alegria não quer dizer nada...".
Alegre todos somos, todos fomos ou vamos ser. O problema não é a felicidade, mas o que se esconde por trás dela.
O problema é quando se sente o peso daquilo que carregamos.
O problema é quando os ombros cedem.
O problema agora é: dizer a uma mãe lúcida de 90 anos que o filho querido dela morreu.





